Wednesday, January 18, 2012

Que isso, Gordinha?

Porque um clássico como esse só aparece de dez em dez anos...

Sunday, January 15, 2012


Pousada Bonaparte, o terror de Maceió.

Assim, mas o que mais se destacou na nossa viagem foi a pousada que ficamos. O que, ela foi legal¿ Isso, um lugar perfeito pra você se hospedar se quiser se irritar. Ou hospedar aquela sogra ou seu cunhado folgado. Cara, sem noção! Eu posso falar pra você com conhecimento de causa, afinal, já fiquei em diversas pocilgas no mundo inteiro. Mas essa pousada me deixou impressionado, se destacou. Uma coisa é você ficar num bangalô decrépito em uma ilha da Tailândia como o vídeo abaixo:

Mas aí você entende, é uma região isolada em um país não muito rico e você, by the way, tá pagando 6 reais por noite pra ficar em um quarto sozinho. Outra coisa é pagar 28 reais em uma pousada na quinta maior cidade do Nordeste, com toda a infraestrutura necessária, em um quarto com mais OITO camas e UM BANHEIRO e, bem, não ter direito nem a um colchão. Sim, isso mesmo que você leu! Não havia SEQUER COLCHÃO no nosso quarto! E a gente dormia em que¿ Bem, era tudo menos em um colchão. Cara, aquilo era algo entre uma espuma e uma caixa de ovos. Dá só uma olhada no que dormíamos:

Primeira foto
Bicho, sério, eu já cheguei a pagar um dólar pra dormir em duas pessoas no Nepal quando viajava com a CoraçãoGelado. O quarto não tinha nada, mas pelo menos tinha malditos dois colchões pra podermos deitar em cima. Qualquer lugar que eu viajava, seja na Ásia, seja no inferno, eu sabia que o lugar que iria ficar não poderia ter muita coisa, mas um colchão era o mínimo que eu TINHA CERTEZA que iria conseguir. Colchão é o mínimo que você pode colocar um ser humano pra dormir, abaixo disso você vira, sei lá, um cavalo ou uma geladeira sendo transportada em um caminhão, mas  não um ser humano. Cara, sério mesmo, aí vai mais uma foto, diz se não parece uma espuma que a galera utiliza pra poder colocar embaixo de geladeira em caminhão de mudança.


Se liga nessa segunda foto
 Só pra vocês terem uma ideia, nós chegamos em 22 pessoas pra poder ficar naquele pardieiro e no final acho que umas dez pessoas pagaram, todos os dias da pousada, e foram dormir em outro hotel. Sorte nossa, que pudemos colocar as espumas de mudanças uma em cima da outra e, assim, dobrar a largura de nosso “colchão”.

Sim, foi nesse estrado confortável que ele nos colocou pra dormir...
Pera, não para por aí. Além de todo esse conforto de dentro dos quartos, ainda tinha o atendimento. Cara, o dono do lugar, um francês, era muito, mas MUITO ignorante! Bicho, chegou um momento que eu achava que ele imaginava me fazendo um favor e não prestando um serviço. O bicho era ignorante! Mas era grosso que só parede de igreja. Você ia perguntar uma coisa pra ele, ele te respondia com sarcasmo e com uma grosseria que nos impressionava. Só pra vocês terem uma ideia, segue um diálogo que eu tive com a simpatia:

- Oie amigo, tudo bom¿ Então, só agora que eu fui perceber, as suas tomadas já são naquele novo padrão de três furos e o carregador do meu celular é no de dois furos. Tu não terias um adaptador pra eu carregar meu celular não¿
- São cinco reais amigo.
- Cinco reais por um “T”¿¿¿¿¿¿¿¿¿¿¿¿
- São cinco reais amigo.
- Brother, acho que eu não tou sendo tão claro, eu não quero comprar, eu tou querendo usar só por uma hora pra eu poder carregar meu celular.
- São cinco reais, amigo.
- Cara, peraí! Será se a gente pode ter um pouco de bom senso aqui¿
- São cinco reais, amigo.
- Cara, eu tou hospedado aqui! Eu tou PAGANDO por esse lugar!
- Amigo, comecei a vender depois que eu emprestava e depois ninguém me devolvia.
- Deixa eu ver se eu entendi. Você tá alegando que eu posso roubar o seu T¿
- São cinco reais, amigo! – e virou de costa e me deixou falando sozinho.
Cara, aquilo me deixou tão, mas tão revoltado! Porra, eu tava pagando pra ficar na pousada do figura e o cara tava me “usurando” um adaptador! E ainda me chamou de ladrão! É por essas e outras que eu falo! Cara, se for a Maceió, NÃO SE HOSPEDE na Pousada Bonaparte. Eles, a Pousada Bonaparte, se aproveitam de pessoas que fazem reservas pela internet, que não tem conhecimento de como é aquela pocilga, pra poder cobrar o que querem e prestar um serviço como aquele. Cara, vou gastar um certo tempo da minha vida, mas vou fazer o que puder pra fazer com que ninguém volte a ter uma experiência desagradável como a que eu tive. Vou visitar todos os fóruns de mochileiros, albergues, o que for! Mas esse maldito “T” vai sair bem mais caro pra aquele francês ignorante do que ele pode imaginar. Ele vai aprender que as vezes o barato pode sair bem caro ;)
Caso queiram saber o site do pardieiro, é só clicar no link abaixo:

Noite de UFC

                Uma noite antes de irmos para Maragogi ia rolar aquela porradaria entre o Cigano e o Cain Velasquez que o Cigano ganhou por nocaute. Na hora isso me remeteu aquela história de quando eu fui ver uma luta entre o Wanderlei Silva e o Chuck Lindell em Santa Bárbara, pois estávamos em uma cidade diferente procurando uma TV pra ver o pau comendo. Marcamos com um amigo que estava em outro hotel mais grã-fino e fomos lá pra poder ver a luta acreditando que um hotel mais caro iria ter uma assinatura do canal Combate. 
Em Maceió, a carne é "do sol" mesmo.
                Quando chegamos lá não acreditamos quando vimos que o hotel só tinha TV aberta. Bateu um certo desespero quando vimos que a luta estava pra começar e não tínhamos onde ver. Resolvemos fazer o que era certo numa situação como essa. Saímos, literalmente, correndo do hotel em busca de qualquer bar, restaurante, pocilga, prisão, o que fosse, que tivesse transmitindo a luta ao vivo para podermos ver. Lembrei da final da Eurocopa que queria ver quando estava no Vietnã e tivemos problemas semelhante pra poder achar um bar.
Dez malucos correndo que nem loucos pela cidade e nada de achar uma TV transmitindo a luta. Quando estávamos próximos a desistir, ouvimos um grito do mais exaltado do nosso grupo e fomos ver o que era. Sim, ele havia achado o nosso eldorado!!! Corremos feito loucos pra poder ir ver a luta.
                Chegando lá, ficamos de boa e pedimos uma cerveja. A luta principal ainda ia demorar pra começar. Como tava com um pouco de fome resolvi pedir uma picanha pra comer enquanto esperava. Enquanto isso, o nosso brother, mais conhecido como “neguinho”, começou a conversar com dois cabras GIGANTESCOS sentados na mesa ao lado sobre MMA e ficou logo brother dos bichos. Papo vai, papo vem, começa a luta principal. E nada da minha picanha chegar. Quando soou o gongo e o Cigano começou a trocar tapa com o cara, minha picanha chegou. Rapaz, mas foi eu pegar o garfo e a faca pra comer minha picanha pro Cigano dar uma bolacha na oreia do pobre e ganhar a luta de nocaute. Fácil como roubar doce de criança. Rapaz, pra que¿ “Neguinho” se abraçou com os cabras e começou a pular e a comemorar que nem uma criança (sim, ele é fã de MMA). Meu amigo, quem disse que eu consegui ver o nocaute¿ Os bichos começaram a pular e vir pra cima da minha mesa e eu a me desesperar de ver minha picanha indo pros ares. Depois de muito “Cigano deu no cara” de um lado e muito “Meu Deus, olha a minha picanha!” ficou tudo bem no final.Só consegui ver o nocaute lá pro terceiro replay...

Maragogi

No outro dia fomos para Maragogi, uma reserva natural de corais em Alagoas. Cara, vi algumas fotos na internet e realmente fiquei maravilhado com o lugar. Maragogi era de longe o lugar que eu mais esperava visitar quando estava para ir para Alagoas. Se liga nas fotos aí embaixo.




Fomos lá e você não tem ideia. Todos aqueles corais, aquela água azul, aquele céu... Nossa Maragogi foi uma... uma... deixa eu achar a palavra certa.... Maragogi foi uma merda. Puta que pariu, que decepção da porra. Primeiro que o lugar é CHEIO de gente, gente pra todo lado e fazendo barulho. Comecei a nadar um pouco afastado do pessoal pra ver se eu conseguia ver uns peixes e ainda assim tinha pouca coisa. Os poucos peixes que haviam por lá eram sem graça e a diversidade era mínima. Nossa, que decepção, acho que é hora de eu dar uma volta em Arraial do Cabo novamente...
Legal mesmo de Maragogi foi só no caminho ir conversando com o guia da van. O bicho era engraçado e foi me contando as história dele de como era a vida no interior de Alagoas há uns vinte anos atrás. Diz ele que veio de um interior onde os principais utensílios domésticos eram um par de cadeiras na porta, um fogão a lenha pra fazer comida e um revólver no bolso pra qualquer eventualidade. Mas assim, com uma naturalidade como quem te pede um copo d´água. Falou que a cidade dele era terra sem lei mesmo e que ele passou uns dois anos assim sem nunca ter sido preso. Eu, claro, perguntei:
Única foto decente que bati de Maragogi..
- Mas a polícia, não te tomava essa arma não?
- Ah, cara, trabalhador assim eles não enchiam o saco não. Sabiam que eu era gente boa e por isso não me perturbavam.
É, inversão de valores é conosco mesmo. No interior de Alagoas, pai de família anda com arma no bolso e não se fala mais nisso =)

Thursday, December 08, 2011

Maceió



                Esses dias viajei com uns amigos pra Maceió. Aproveitamos que tivemos uma folga aqui em Brasília e uma galera, em peso, resolveu comprar passagens e descer pra lá. Não foi a minha primeira vez na capital de Alagoas, mas com certeza foi a que eu gastei mais tempo conhecendo as atrações que existem próximas a cidade. Digo ao redor da cidade pq Maceió em si não tem muitas atrações. É uma capital do Nordeste como outra qualquer, com algumas coisas legais pra fazer, mas nada muito extraordinário. Tirando uma ou outra estátua do Marechal Deodoro da Fonseca, que parece ser o maior herói da cidade, não existe muito o que olhar.
Aê... Olha o nome do barco!!

No primeiro dia fomos para a praia do Francês, que até parecia ser uma boa praia, pena que choveu o dia inteiro e não deu pra curtir tanto. Eu ainda tentei alugar uma prancha e surfar, relembrando os bons tempos que morava na Austrália, mas percebi que estou demasiadamente enferrujado! Depois de tomar um caldo atrás do outro, achei que seria melhor devolver a prancha antes que eu terminasse por me afogar. Ainda bem que não avisei ninguém da galera que estava indo surfar, bom que não passei vergonha. Voltei cedo pra pocilga que fiquei pra poder dormir logo, já que no outro dia acordaríamos BEM cedo pra poder fazer o passeio da Foz do Rio São Francisco.
Confessa, todo mundo tem um dessas...
 Foz do Rio São Francisco

Inicialmente eu planejava fazer um passeio aos cânions do Rio São Francisco, que ficam na fronteira entre os estados de Alagoas e Sergipe. Cara, o lugar é muito lindo e muito da hora! O grande problema é que é longe de Maceió e infelizmente não deu pra irmos pra lá. Tivemos que nos contentar em ir a sua foz (foz é onde o rio encontra o mar), pois era bem mais perto. Fechamos com uma agência e os bichos foram nos pegar na porta da pousada. Quem foi dirigindo a van foi um motorista que fazia as vezes de guia turístico e que, diga-se de passagem, era MUITO engraçado. O bicho era bem figura e viajar com ele era dando risada durante boa parte do caminho.
                     
No caminho ele foi mostrando algumas curiosidades da cidade de Maceió. Passamos do lado de um “cinturão verde” e ele foi nos explicar o que era. Apesar de todo o apelo ecológico que eles queriam transparecer, aquele “cinturão verde” foi feito ao redor de um fábrica de corrosivos para que, caso ocorresse um vazamento, pudesse primeiro atingir esse tal “cinturão verde” antes de causar algum tipo de problema para seres humanos. Idílico não? Pois é, se isso é verdade ou não, ele depois mostrou o verdadeiro “cinturão humano” que existia ao redor da fábrica também. Ele não soube informar se era uma invasão ou se foi a própria fábrica que concedeu aquilo, mas ao redor da indústria existiam diversas moradias precárias com várias famílias morando. Diz que aquelas pessoas moravam lá e por motivos de segurança foi colocado um alarme caso algum vazamento ocorresse para que as pessoas “corressem” caso houvesse algum tipo de problema. Isso, não é que havia um plano de socorro ou resgaste dessas famílias, o que havia era um alarme e “dá no pé, cabra!”, “corre pra aquele lado”. Segundo o guia, seis meses atrás o alarme foi tocado e foi uma correria danada pra tudo que foi lado. Imagina a situação, cara, você tá ali de boa em casa, vendo o seu Faustão, todo serelepe e, DO NADA, soa um alarme. Vazamento de uma indústria de CORROSIVOS!!! Meu amigo! Deve ter gente correndo desse alarme até hoje! Depois que se descobriu que foi um alarme falso. Foi brinks. Simples, né? Todo mundo de volta pra casa e finge-se que nada aconteceu. Esses estagiários que ficam tocando o alarme...
Tamanhozinho do pastel, meu brother!
Outra curiosidade que nos foi proporcionada também foi que pudemos ver no caminho uma estátua do Marechal Deodoro da Fonseca (mais uma) em cima de um cavalo. E, vejam só, como vocês iam morrer sem saber disso! O cavalo do Marechal estava com as quatro patas no chão. E daí? Bem, e daí que isso significa que ele havia morrido de causas naturais. Se o cavalo tivesse com duas patas levantadas, significava que ele havia morrido em batalha, e apenas uma pata no chão, que ele havia morrido em ação (não me pergunte a diferença entre ação e batalha porque eu não tenho a mínima ideia!). Interessante, né? Tem coisas que só esse blog sabe fazer você descobrir! Preste atenção nas patas dos cavalos das suas cidades e surpreenda seus coleguinhas com todo conhecimento adquirido aqui!
Outro banho de cultura que nos foi proporcionado foi sobre os motéis lá de Maceió. Segundo o guia, lá em Maceió tinha uma região de motéis que era conhecida como “você que sabe”. Isso vinha da história de quando você perguntava pra alguma menina pra onde ela queria ir e ela respondia “você que sabe”, você já sabia onde levar ela. Depois não tinha desculpa que vc foi pro lugar errado. E sim, havia um motel lá com esse nome, pena que passamos rápido e não deu pra bater foto. Mas que eu achei o nome engraçado, achei...
Tá, eu nunca fui bom com protetor solar mesmo...
Depois de todo esse banho de cultura, chegamos à última cidade antes da foz para poder pegar o barco em direção à foz. Era a cidade de Piaçabaçu e junto com o barco vinha uma guia. Rapaz, mas a vontade que a gente teve foi de jogar a guia na água, viu¿ Eita, mas aquela mulher falava... Nos brindou com mais conhecimento que eu até hoje não sei como consegui viver sem. Pra começar, lá foi filmado o filme “Deus é Brasileiro” (ótimo filme por sinal) e ela ficou toda se gabando por conhecer diversos atores globais. Morri de inveja ali na hora, tudo o que eu mais queria era uma foto com o Antônio Fagundes, não sei como vou viver sem nunca tê-lo abraçado! Depois ela nos brindou com a inestimável curiosidade, que ela contava com um indescritível orgulho, que Piaçabuçu era, pasmem, a única cidade do Brasil que era ESCRITA COM DUAS CEDILHAS!! Sim, amigo, é isso mesmo! Vocês conseguem acreditar? Pois é verdade, é a única cidade do Brasil escrita com duas cedilhas! Você acha que é pouca coisa? Pois você tinha que ver o orgulho que aquela menina falava da cidade dela! Mas enchia a boca pra falar disso!
                              
A foz é um lugar bem bonito. O mais interessante de ver era um farol que ficava suspenso no meio do rio. Perguntamos o que era e nos foi dito que aquilo foi tudo que sobrou de um povoado que existia do lado da praia. Diz que de uma hora pra outra o mar começou a encher, encher, encher e tomou todo o povoado, só deixando como resquício aquele farol. Se tivesse algum ecochato no barco já ia gritar que era aquecimento global, mas, felizmente, esse ponto não foi tocado.
                                   


Tomamos um banho e voltamos pro barco. Cara, mas que peça. Bicho, todo mundo pregado e cansado de horas de exposição solar e banhos de rio e a mulher não parava de falar. Mas, mlk, sério mesmo, a mulher parecia uma metralhadora! Tudo o que você mais quer quando está fazendo uma viagem pra relaxar e espairecer é uma mulher que não para de falar besteira e se gabar porque tem fotos com atores globais...
                            


                                

Tuesday, November 29, 2011

Movimento Tempestade em Copo d´Água

Vídeo muito interessante elaborado pelos alunos de Engenharia Civil da UNICAMP sobre a Usina de Belo Monte

Saturday, November 19, 2011

Contos em Lisboa

Cara, o encontro do Couchsurfing em Lisboa teve várias atrações e coisas legais. Porém, se eu pudesse citar o que foi a coisa mais engraçada e interessante de toda essa viagem por Portugal eu responderia sem sombra de dúvidas que foi conhecer o Chris. Ele era inglês e trabalhava como advogado para refugiados na Inglaterra. Isso só uma das várias histórias dele, pois, como falei, o bicho realmente era engraçado.

Vivendo no Iraque

Pra começo de conversa, ele já tinha lutado no Iraque. Sim, isso mesmo que você está lendo aqui, o cara era veterano do Iraque. Eu juro que quando ele falou isso pra gente eu fiquei espantado, não com o fato de ele ter ido lutar lá, mas sim com a naturalidade que ele falava isso. Falava como se fosse a coisa mais normal do mundo, mas, assim, como quem diz “ah eu trabalhei de policial uns tempos por aí”. “Por que diabos ele tinha ido lutar no Iraque” – essa deve ser a pergunta que você está se fazendo e pode ter certeza que foi a primeira pergunta que eu fiz pra mim mesmo quando ele me falou isso, afinal, como já disse, o cidadão era advogado de refugiado, ou seja, era um cara estudado. Na simplicidade costumeira ele falou que um dia estava em casa entediado e pensou “Nossa, preciso fazer alguma coisa legal que vá render muita história, essa minha vida tá muito chata”. Começou a dar um passeio na rua, viu um cartaz conclamando ingleses a ir lutar no Iraque e pensou que isso seria uma boa ideia. Se inscreveu no programa e algumas semanas depois já estava iniciando o seu treinamento para poder ir lutar no Iraque. Diz ele que tentou entrar no MI6, o serviço secreto inglês, mas que não foi aceito devido a seu passado como advogado para refugiados (principalmente pessoas da Somália suspeitas de terrorismo. Sim, o figura era doido mesmo!).


Certo dia, contou que estava em um treinamento em um lugar tipo uma fazenda e o sargento havia falado pra eles que eles poderiam atirar nos alvos ou em qualquer outra coisa que quisessem, bastava que não fossem os próprios instrutores (é sempre bom falar, né? Do jeito que tinha maluco por lá...), ovelhas e vacas. Diz ele que cinco ficavam atirando e um sexto ficava passando de cabeça baixa (a coisa mais sábia a ser feita quando um pelotão de malucos está atirando) e servindo munição pra todo mundo. De repente, entrou no campo de tiro, um pouco distante, mas não muito, um pavão. Um pavão grande, gordo, colorido, bonito! Um belo pavão. Eis que de repente alguém pensa “Hum, pavão não é gente, não é vaca e não é ovelha” vira-se e começa a sentar o dedo pra tentar matar esse pavão. Os outros foram tendo a mesma ideia e todo mundo começou a tentar matar esse pavão. E aí foi aquela loucura, com todo mundo tentando matar o maldito pavão e querendo ser o primeiro a abatê-lo. Rapaz, diz que foi uma cena cômica, pra não dizer o mínimo. O pavão ficou caminhando calmamente pelo campo, de um lado para outro e só as rajadas de bala comendo do lado dele. Gente, eu acho que eu não preciso explicar, um pavão não é uma avestruz, um pavão é uma ave lenta... Ele caminha muito vagarosamente. Pois é, ainda assim os caras metiam fogos, rajadas comiam do lado do pavão e nada de alguém conseguir acertá-lo. Era tanta bala que até o cara que fornecia munição queria saber o que tava acontecendo, porque ninguém parava de atirar e pedir mais munição... No final o pavão saiu da linha de tiro na maior calmaria do mundo e sem nenhum arranhão. Diz que o sargento mandou parar o treinamento e ficou encarando um por um querendo entender o que tinha ocorrido. No final ele só deu um esporro no melhor estilo “vocês são os piores soldados que eu já tive que treinar!” e no final ficou tudo certo. E assim, alguns meses depois, ele tava pronto pra poder ir para o Iraque.

Nós três no dia em que o Chris nos contou as suas aventuras com o Pavão!

Quando alguém perguntava se tinha algo que ele pudesse descrever do Iraque, o que ele mais lembrava de lá, ele dizia “homens nus lambuzados de óleo correndo pelas ruas”. É, isso mesmo que você leu! Antes que você comece a achar que o bicho tava viajando ou que ele tenha andado por quebradas gays do Iraque, não é nada disso! Na verdade, na verdade, quando ele chegou a Basra, cidade do Iraque que os ingleses ficaram responsáveis por controlar, as batalhas já haviam cessado (até porque eles não iam mandar um cara com esse nível de treinamento pra poder combater no front). A função dos soldados ingleses que chegaram depois foi de basicamente agir como polícia e manter a ordem no lugar. Eles tinham ordens expressas de NUNCA atirar sem que fossem atacados primeiro, ou seja, patrulhavam com rifles, mas não podiam usá-los, eles basicamente serviam de enfeite. Bem, lógico que não era só eles que sabiam disso, os iraquianos também tinham conhecimento. O que eles faziam? Bem, quando alguém queria roubar alguma coisa, os caras basicamente tiravam toda a roupa possível e se besuntavam de óleo, dificultando sobremaneira que fossem agarrados quando saíam na carreira. E lá iam o Chris e os companheiros correrem atrás de um bando de homem besuntado de óleo pra ver se agarrava. Felicidade extrema! Além disso, ele contou que certa vez teve o carro fuzilado quando fazia patrulha, mas dessa vez, felizmente, o fuzilamento foi realizado por pedras jogadas por crianças.

Advogado de refugiados

Mas o mais interessante mesmo de conversar com ele, era ouvir os casos que ele falava dos refugiados que ele tomava conta. Diz que era só caso escabroso. Teve um cara que era muito gente boa e ele realmente ficou amigo do bicho, mas que a Inglaterra não cedeu asilo a ele só porque o trabalho dele era recrutar crianças pra lutar no exército rebelde de Uganda. Poxa, não existe aquele ditado que toda profissão é digna? Outra foi a de um somali que juntou todas as economias da vida dele e chegou na Europa quase que a nado, mas também infelizmente não obteve asilo. Mas pra mim o mais interessante era quando ele comentava dos chineses. Diz ele que diversos chineses, sem ter a mínima esperança de obter algum futuro na China, fazem acordos com a máfia chinesa e a máfia toma conta de fazê-los chegar na Inglaterra. Eles cuidam de passagem, entrada, o que for. Bem, mas gente, se ninguém faz nada de graça, imagina a máfia. Pois é, a máfia fazia todo esse serviço e pedia em troca apenas 70% de tudo que eles ganhassem trabalhando na Inglaterra. De boa, né? Cara, pode parecer ruim, mas é MUITO melhor do que eles conseguiriam na China. Caso eles quisessem sacanear a máfia, não tinha problema, eles só torturavam ou matavam algum parente do bicho e tudo estava resolvido. Resultado? Dana-se o pobre do chinês pra trabalhar 20 horas por dia na Inglaterra e mandar tudo pra China, tanto pra máfia, quanto pra sua família. Mas o mais macabro era o que acontecia caso fossem pegos pela imigração inglesa. Como estar ilegal em um país não é um crime, os oficiais ingleses recolhiam o passaporte dos chineses e davam prosseguimento ao processo de deportação. Quando os ingleses iam à embaixada da China para reconhecimento do passaporte, a Embaixada falava que o passaporte não era chinês, que era falso e que o pobre imigrante não era problema deles. E aí? E aí chora. A Inglaterra não podia fazer nada, até porque é interesse da China que essa grana fique sendo repassada para o país. Resultado? O chinês não podia ser deportado, ele continuava trabalhando que nem um escravo e os oficiais de imigração basicamente só anotavam os dados do chinês e o mandavam embora. Simples assim. Gente, tudo isso, como falei, era ele que tava falando, não sei até onde é verdade, mas devido o nível de detalhamento que ele ia falando as coisas, realmente parecia bem verossímil.

Quando voltar pra casa não parece uma boa ideia


Robert Mugabe, ditador sanguinário do Zimbábue

Mas o mais chocante mesmo era quando ocorria deportações de países, digamos, “complicados”. Ditaduras fratricidas tem problemas com pessoas que tentam fugir dos seus países. Apesar de a grande maioria das pessoas que fogem desses lugares serem cidadãos honestos que querem apenas melhorar de vida, alguns poucos são opositores políticos que podem causar problemas se voltarem. Ele disse que em alguns países, notadamente o Congo e o Zimbábue, ocorria fuzilamento sumário, no aeroporto mesmo, de refugiados que eram deportados de volta. Se em trinta deportados, um poderia ser opositor político e causar problemas, porque não passar todo mundo na bala e assim evitar correr riscos? É, racionalismo macabro é conosco mesmo... Outra que ele contou foi a história de uma mulher do Turcomenistão que foi deportada. Dois oficiais de imigração da Inglaterra foram escoltando ela no avião. Chegando ao Turcomenistão, diz que ela não conseguiu se “explicar” direito porque tinha "fugido" pra Inglaterra e a polícia secreta do país resolveu descer o cacete pra ver se ela confessava que era espiã. Como ela não quis “colaborar”, eles tentaram achar “colaboração” em quem mais estava com ela. E quem foi com ela? Sim, os dois oficiais ingleses que a acompanhavam. E nem adiantou os dois tentarem de toda forma apresentar os passaportes pra provar que eram ingleses. “São passaportes falsos, eles também são espiões” – e dana-se os pobres apanharem também no aeroporto. Eu fico imaginando o desespero deles gritando "Eu sou inglês!!!" enquanto apanhavam! Até os caras realmente acreditarem que eles dois realmente eram ingleses, os pobrezinhos apanharam que só menino quando apronta...

Vivendo na Inglaterra

Mas nem só de desgraça vivia o Chris. Era engraçado também ouvir ele falando de como era a maneira inglesa de viver. Segundo ele, a vida na Inglaterra era tão desgraçada que eles gostavam de tomar cerveja quente e comida sem gosto. Diz ele que eles misturavam tudo, juntavam e jogavam a 300ºC no óleo quente que era pra levar o gosto de qualquer coisa. Que um dia bonito lá era quando não se chovia três dias ininterruptos. Que se achávamos que tava fazendo frio em Lisboa porque tava fazendo uns 10ºC deveríamos passar o ano inteiro a -10º pra poder saber o que era uma vida desgraçada. O bicho era engraçado demais. Pra fechar com chave de ouro, ele voltou um dia mais cedo pra Inglaterra e mandou uma mensagem pra gente “Domingo de sol em Lisboa? Aqui na Inglaterra tá -5ºC e ainda tá chovendo granizo. Nós rimos do seu frio :P!!”. Que bicho gente boa, cara!

Chris, desesperado por um pouco de sol em Lisboa

Monday, October 24, 2011